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Sobre o Obituário


Por Frater Taliesin, DF Na primeira monografia de Atrium do Arcanum Arcanorum é passado um exercício que venho realizando já há algum tempo e cada vez mais se mostra importante para a minha vida. Este exercício é lá chamado de “Obituário”. Abro este tópico para discutirmos a forma como deve ser feito e a utilidade deste exercício. Primeiramente cumpre ressaltar que o exercício é feito como se um amigo seu estivesse contando a uma 3ª pessoa como foi a sua vida em poucas palavras. Não é você descrevendo o que fez, é outra pessoa dizendo o que conseguiu perceber de importante de sua existência. Essa ideia de ser outra pessoa contando sobre nossa vida é essencial já que irá refletir aquilo que você quis deixar de legado para os outros e não as transformações internas que você teve. Ou seja, o que importa não são as transformações internas ou reformas íntimas que você teve durante a sua vida, mas sim o que isto marcou nas atitudes que você tomou e que os outros perceberam. A ideia é supor que você se realizou durante a vida, que realizou os seus sonhos e ambições mais altos, e que a sua vida adquiriu um formato, que é aquele que você desejaria realmente transmitir a outras pessoas, ou seja, o exemplo que você quer passar. Outra observação importante é a necessidade de que este relato seja em poucas palavras, já que o que se deseja é descobrirmos as características que REALMENTE são importantes e queremos deixar de legado desta vida. Um obituário muito grande nos levaria a ficar divagando sobre atributos que não são os mais importantes e essenciais para a gente. A sinceridade neste exercício é essencial, se você quiser ser um mega milionário, mais rico que o Eike Batista, escreva isto. Não tenha vergonha dos seus desejos, não deixe que o politicamente correto e que a opinião pública limitem seus sonhos. Se você quiser ser um monge trapista ou um eremita, escreva isto. Neste exercício, a princípio, nem a realidade objetiva que se apresenta deve ser limite para você escrever o que você deseja ser. Como diria José de Ortega y Gasset: “Gênio é aquele que inventa a sua própria profissão”. Então não se prenda a realidade existente, se o que você quer fazer não exista, invente. Exemplo: Eu quero ser médico. Porém já tenho 30 anos, 3 filhos, trabalho como contador em uma empresa e “sei” que nesta altura da minha vida ser médico é algo “impossível”. Se for isso que você acha que deveria deixar de legado – ser médico ou cuidar da saúde dos outros – escreva. Neste primeiro momento este exercício é para nos conhecermos, sabermos o que nos desperta interesse e o que, sendo confrontado com a inevitabilidade da morte, nos é importante de ter feito e deixado de exemplo para os outros, de história de vida que gostaríamos que fosse percebida pelos outros. É de suma importância a SINCERIDADE neste exercício. Sejamos sinceros. Agora, a sinceridade não é algo simples que em um primeiro momento conseguiremos transpor para o papel com facilidade. A sinceridade é uma busca constante e este exercício do Obituário deve ser feito diversas vezes buscando sempre ser cada vez mais sincero consigo mesmo. “A sinceridade é a esfera subjetiva da verdade!” Outro ponto importante é a repetição deste exercício. Ele deve ser refeito de tempos em tempos, para podermos aprimorar nossa sinceridade e também porque nossos objetivos e valores tendem a se refinar com o decorrer do tempo. O cara lá que escreveu que queria ser médico no primeiro obituário pode descobrir que a Verdadeira Vontade dele não é de ser médico, mas de divulgar hábitos saudáveis para os outros (pode ser um jornalista na área da saúde), ou então de auxiliar os outros a terem saúde (pode ser um professor de educação física), ou então de cuidar da sua própria saúde com mais afinco, etc. E a utilidade deste exercício qual é? – Auxiliar através da pratica da sinceridade pessoal a descoberta de Verdadeira Vontade, da sua vocação, do que você gosta e quer deixar de legado quando a morte chegar, quando sua forma, que até a morte pode sempre mudar, torna-se definitiva e imutável. (Você pode até acreditar em reencarnação ou o que for, mas aquela sua vida como aquele ser humano de carne e osso tornou-se definitiva. A não ser que o Machado de Assis ressuscite e escreva um novo livro, aqueles livros escritos por ele, tomaram a forma da “obra de Machado de Assis” e esta obra após a sua morte esta completa e acaba, imutável e definitiva). – Utilizar deste exercício como base de confronto para o que você faz, quem deve julgar suas ações é o quanto suas ações te aproximam ou te afastam do descrito no seu exercício do obituário. Se a gente não sabe o que quer deixamos para os outros escolherem o que fazemos. Deixamos os outros julgarem nossas atitudes segundo o que eles acham que devemos ter feito ou segundo o padrão repetido em sociedade. Se não temos uma ideia do que queremos deixar de legado nesta vida não somos aptos a julgarmos a nós mesmo, e utilizamos critérios externos para pautar nossas ações. Vivemos na famosa “correnteza leva mané”, onde seguimos o fluxo da maré de opinião pública e do politicamente correto. Beleza, fiz o exercício, já tenho uma ideia do que eu gostaria de deixar de legado, mas a realidade que se apresenta para mim não facilita a consecução do meu “obituário”. O que fazer? Após ter feito o exercício do obituário vem a segunda parte da equação: [O que eu quero ser] + [a realidade que se apresenta] = O que eu sou! Muito provavelmente você não irá conseguir ser exatamente o que você descreveu no “obituário”, já que existe outro fator que deve ser levado em conta e este outro fator não depende de nós, é a Realidade que nos é apresentada. Aquela história de “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo.” é balela… A realidade é neutra, ela é a mesma para todo mundo, por isso nem ajuda e nem atrapalha seus objetivos, ele simplesmente é! O que acontece é que quando a gente sabe o que quer nós conseguimos observar as oportunidades que aparecem para nos auxiliar a cumprir nossos objetivos, bem como ficam mais claras as dificuldades que temos, e assim facilita a busca por soluções e a consequente integração daquela circunstancia desfavorável ao nosso projeto. Temos dois elementos, um unificante que é o seu ideal, o seu necrológio, o que você quer; e temos um elemento que é em parte favorável e em parte desfavorável a realização de nosso ideal, qual seja a realidade que quase sempre não conspira a nosso favor já que ela é a mesma para todos, sendo neutra quanto aos nossos sonhos. O elemento unificante que é o que dá sentido a nossa vida, está em constante tensão com o elemento dispersante, sempre tentando trazer um significado a realidade aparentemente desordenada da nossa existência. Devemos estar sempre atentos a este elemento unificante pois mesmo quando nos deparamos com diversos elementos desfavoráveis devemos nos esforçar para integra-los ao elemento unificante. Com frequência o que antes parecia como um elemento desfavorável/dispersante, mais a frente conseguimos integra-los e unificar com nosso ideal. Existem vários exemplos onde a realidade que aparentemente era totalmente dispersante e sem sentido, passa, no futuro, a ser unida e coerente através da junção dele com o ideal unificante. O próprio Steve Jobs naquele vídeo famoso onde ele conta um pouco da história da vida dele em uma formatura ele descreve como um curso de grafia que aparentemente não lhe serviria para nada, no futuro o serviu para criar as fontes do sistema operacional que ele estava desenvolvendo (coisa assim). Tantos outros que viveram na miséria e depois dali retiraram inspiração para suas obras de arte, ou que sofreram acidentes que lhe tolheram determinadas funções do corpo e se realizaram como esportistas paraolímpicos, ou palestrantes justamente sobre como nos adaptamos e podemos nos realizar independente da realidade que nos é apresentada. Vocês com certeza conhecem exemplos de pessoas que integraram a realidade dispersante ao seu fator unificante, que transformaram elementos desfavoráveis em elementos favoráveis para a consecução do seu sonho. Outro dia encontrei um amigo meu que desde pequeno fazia Judô e gostava muito de artes marciais. Muito provavelmente se ele fizesse o exercício do obituário ele colocaria que seria um Judoca olímpico e tal. Mas a realidade que se apresentou a ele não era favorável a isso. Ele não treinou o tanto necessário para ser um judoca olímpico, teve que estudar, fazer faculdade, se preocupar em ganhar dinheiro com outras coisa, etc. Acabou que arrumou um trabalho em um Tribunal. Aparentemente a realidade dele era totalmente desfavorável a realização do seu intento. Mas depois de um tempo trabalhando no tribunal, descobriram que ele era faixa preta de judô e que conhecia técnicas de defesa pessoal e começaram a abrir um espaço para ele ensinar essas técnicas aos juízes, promotores, etc. Hoje ele ganha vida ministrando esses tipos de cursos. Não virou um judoca olímpico, mas conseguiu manter as artes marciais em sua vida mesmo parecendo que ela tinha ido para outro lado. Esse é só um de tantos os casos onde a realidade que aparentemente nada tinha a ver com o ideal da pessoa, tempos depois passou a ter um sentido unificante. Então tenhamos calma e fiquemos atentos, mesmo que nossa realidade não pareça auxiliar no cumprimento de nosso ideal devemos buscar sempre manter a unidade de intenção, integrando os elementos desfavoráveis ao nosso ideal, com negociações entre a realidade e o nosso ideal. Me alonguei bastante, mas espero ter conseguido transmitir a importância que esse exercício pode ter em nossas vidas. Muito provavelmente o objetivo do MDD ao nos passar esse exercício seja a descoberta da nossa Verdadeira Vontade, sendo ele mais um elemento, junto com nosso mapa astral, nossas vocações, dentre outros, para este desígnio. Busquemos então sermos os mais sinceros que conseguirmos e termos a maior seriedade possível na feitura do exercício, afinal fazemos ele como um obituário para termos a ideia da seriedade que a morte traz para nossas vidas. Assim Seja!

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