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O Jejum do Coração

Atualizado: 16 de mai. de 2022


Texto de Chuang Tzu (*)

Yen Hui, o discípulo favorito de Confúcio, veio despedir-se de seu Mestre. — «Aonde você vai?», perguntou Confúcio. — «Vou para Wei». — «Para quê?» — «Ouvi falar que o Príncipe de Wei é uma pessoa luxuriosa, com sangue quente nas veias e muito autoritário. Não dá a menor importância a seu povo e recusa-se a ver qualquer falha em si mesmo. Não dá a menor atenção ao fato de que os seus súditos estão morrendo, a torto e a direito. Cadáveres jazem por todo o país, como feno no campo. O povo está desesperado. Mas ouvi o senhor dizer, Mestre, que devemos abandonar o estado que está bem governado, e ir para o que está em anarquia. No consultório do médico há muitos doentes. Quero aproveitar esta oportunidade para pôr em prática o que aprendi com o senhor, e ver se posso melhorar as condições de lá. — «Quem dera que pudesse», disse-lhe Confúcio, «você não imagina o que está fazendo. Você trará a ruína à sua própria pessoa. O Tao não necessita de anseios, e você apenas des- perdiçará as suas energias em seus esforços malbaratados. Desperdiçando energias, você ficará confuso e ansioso. Com isto, você não será mais capaz de ajudar-se a si mesmo. Os sábios antigos procuravam o Tao, primeiro dentro de si mesmos, depois olhavam para ver se existia algo nos outros que correspondesse ao Tao que eles concebiam. Mas, se você não possuir o Tao dentro de si, de que valerá gastar o seu tempo em vãos esforços a fim de proporcionar aos políticos corruptos uma plataforma correta?… Contudo, acredito que você deva ter uma certa base para esperar obter sucesso. Como acha que poderá levar avante o seu plano?» Yen Hui respondeu: «Tenciono apresentar-me como um homem humilde, desinteressado, que procura apenas fazer coisas certas, e nada mais: uma maneira inteiramente simples e honesta. Será que com isso ganharei a confiança do senhor?» — «Certamente que não», respondeu-lhe Confúcio. «Este homem está convencido de que só ele é que tem razão. Pode pretender, exteriormente, interessar-se por um plano objetivo de justiça, mas não se engane com sua aparência exterior. Ele não está habituado a ter nenhum adversário. O seu ponto de vista é o de assegurar-se de que está certo, esmagando as outras pessoas. Se ele faz isso com os medíocres, certamente o fará com um homem que se lhe apresenta como uma ameaça de ser alguém de altas qualidades. Ele se apegará teimosamente ao seu modo de pensar. Pode pretender estar interessado em sua conversa a respeito do que seja objetivamente certo, mas, por dentro, não lhe estará dando ouvidos, e nenhuma alteração haverá. E, com isso, você não estará realizando nada. Aí, disse-lhe Yen Hui: «Muito bem. Em vez, então, de ir-me diretamente em oposição a ele, manterei os meus próprios modos de pensar, mas, exteriormente, farei como se fosse ceder. Apelarei para a autoridade da tradição e para os exemplos do passado. Todo aquele que não for comprometido interiormente é um filho do céu, tanto quanto qualquer governante. Não confiarei em nenhum ensinamento meu, e, por conseguinte, não me preocuparei se tenho ou não razão. Serei também reconhecido como muito desinteressado e sincero. Todos irão apreciar a minha candura e, assim, serei um instrumento do céu no seu meio. «Desta maneira, submetendo-me à obediência ao Príncipe, como fazem os outros homens, curvando-me, ajoelhando- me, prostrando-me como faria um criado, serei aceito, sem nenhuma queixa. Depois disso, outros confiarão em mim e, pouco a pouco, me utilizarão, vendo que meu desejo é apenas o de me tornar útil e trabalhar para o bem-estar de todos. Assim, servirei como um instrumento dos homens. «Enquanto isso, tudo o que tiver de dizer será expresso de acordo com a antiga tradição. Estarei trabalhando com a tradição sagrada dos antigos sábios. Embora o que eu tenha a dizer seja objetivamente uma condenação da conduta do Príncipe, não serei eu, e sim a própria tradição que estará falando por mim. Desta maneira, serei extremamente honesto e não ofenderei a ninguém. Desse modo, também, serei um instrumento da tradição. O senhor não acha que este meu modo de encarar a questão é que está certo?» — «Evidentemente que não», disse-lhe Confúcio. «Você tem vários planos diferentes de ação, quando você ainda nem conhece o Príncipe, nem observou o seu caráter! Na melhor das hipóteses, você poderá fugir e salvar a sua pele, mas ainda assim não estará mudando nada do que encontrou. Ele poderá, superficialmente, conformar-se com as suas palavras, mas não haverá nenhuma mudança radical em seu coração». Disse-lhe então Yen Hui: «Bem, isto é a minha melhor colaboração à questão. Gostaria que me dissesse, Mestre, o que o senhor me aconselharia». — «Você tem de jejuar!» disse-lhe Confúcio. «Sabe o que quero dizer com essa palavra, jejuar? Não é fácil. Mas os caminhos fáceis não vêm de Deus». «Ah», disse Yen Hui, «eu já me acostumei a jejuar! Em casa, éramos pobres. Passávamos meses sem vinho nem carne. Isso é que é jejum, não?» «Diga-me», retrucou-lhe Yen Hui, «o que se entende por jejum do coração?» Respondeu-lhe Confúcio: «O objetivo do jejum é a unidade interior. Isto significa ouvir, mas não com os ouvidos; ouvir, mas não com o entendimento; ouvir com o espírito, com todo o seu ser. Ouvir apenas com os seus ouvidos é uma coisa. Ouvir com o entendimento é outra. Mas ouvir com o espírito não se limita a qualquer faculdade, aos ouvidos ou à mente. Daí exigir o esvaziamento de todas as faculdades. E quando as faculdades ficam vazias, então todo o ser escuta. Há então uma posse direta do que está ali, diante de você, que nunca poderá ser ouvido com os ouvidos, nem com- preendido com a mente. O jejum do coração esvazia as faculdades, liberta-as dos liames e das preocupações. O jejum do coração é a origem da unidade e da liberdade». «Já percebi», disse-lhe Yen Hui. «O que me impedia de perceber era a minha própria auto-preocupação. Se eu começar este jejum do coração, a auto-preocupação desaparecerá. Então, ficarei livre das limitações e das preocupações! Não é isso o que o senhor quer dizer?» «Sim», disse-lhe Confúcio, «é isso mesmo! Se conseguir tal objetivo, você será capaz de ir ao mundo dos homens sem os perturbar. Não entrará em conflito com a imagem que eles fazem de si mesmos. Se eles o estiverem escutando, cante-lhes uma canção. Se não, fique em silêncio. Não tente arrombar-lhes a porta. Não tente novos medicamentos neles. Apenas coloque-se entre eles, porque nada há a fazer senão ser um dentre eles. Aí, então, você poderá obter sucesso! «É fácil permanecer quieto, sem deixar vestígios; o difícil é caminhar sem tocar no chão. Se seguir os métodos humanos, você poderá enfrentar a decepção. No caminho do Tao, nenhuma decepção é possível. «Você sabe que podemos voar com asas: ainda não aprendeu a voar sem elas. Já se familiarizou com a sabedoria dos que sabem, mas ainda não se familiarizou com a sabedoria dos que não sabem. «Olhe esta janela: nada mais é do que uma abertura na parede, mas, por causa dela, todo o quarto se encheu de luz. Assim, quando as faculdades se esvaziam, o coração está cheio de luz. Cheio de luz, ele torna-se uma influência por intermédio da qual os outros são secretamente transformados».

(*) Chuang Tzu foi um grande filósofo taoísta do Séc. IV a.C., os textos aqui publicados são fruto de um grande esforço de compilação e meditação de Thomas Merton, um monge católico do Séc. XX d.C. que estudou os textos de Chuang Tzu em várias fontes, nenhuma delas sendo a original, mas traduções da fonte original. Finalmente, coube a Paulo Alceu Lima traduzir a Merton, do inglês para o português, conforme visto no livro “A Via de Chung Tzu” (Ed. Vozes, esgotado)

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