Aquele que não segue a multidão

Atualizado: 16 de mai.

Retirado do Tao Te Ching (*)

Quando renunciamos ao aprendizado cessa toda a aflição. A menor diferença entre as palavras, como “maçã” e “maça” [1], pode ser alvo de interminável controvérsia e debate intelectual.

Atemorizante é a morte, pois que todos os homens a temem. Mas as infindáveis discussões que se seguem acerca dela causam ainda mais medo!

A multidão parece satisfeita; como se participasse de um grande banquete; como se festejasse no cume da montanha na primavera. Mas eu estou aqui só, calmo e tranquilo, sem ser incomodado por meus desejos. Eu sou como o recém-nascido que ainda não sorriu.

Eu pareço triste e desamparado como alguém que não tem uma casa para retornar. A multidão tem todo o necessário, e até mais do que o necessário, enquanto eu pareço haver perdido tudo o que eu tinha… Minha mente se parece com a mente de um abobado, sem forma definida.

O homem da multidão parece brilhante e perspicaz, mas eu pareço carregar uma mente em branco. O homem da multidão a tudo critica com suas ideias pré-concebidas, mas eu pareço totalmente despreocupado. Eu pareço com um náufrago no oceano, carregado pelos ventos, a deriva, sem destino…

O homem da multidão parece ter todo o curso da sua vida cuidadosamente planejado e definido, mas eu pareço um inapto, um incapaz, um refugiado vindo da fronteira.

Sim, eu sou diferente de todos esses homens da multidão. Não preciso me mover até o rio – bebo minha água direto da Fonte.

***

[1] Nota do tradutor: Tanto Legge quanto Crowley usaram os termos do inglês “yes” (sim; formal) e “yea” (sim; informal). Murillo optou por ignorar a passagem. Já eu optei por usar os termos “maçã” (a fruta) e “maça” (a arma medieval), pois por muitos anos escrevi “maçã” como “maça”, isto é, sem o acento devido. A ideia aqui é, no entanto, apenas a crítica a preocupação excessiva da intelectualidade, de modo que os termos em si não importam tanto assim.

Todo mês traremos mais uma passagem do Tao Te Ching…


Tao Te Ching

(*) Nesta tradução exclusiva do Tao Te Ching a partir da tradução clássica de James Legge para o inglês, Rafael Arrais (autor do blog Textos para Reflexão) usa do auxílio precioso das interpretações do ocultista britânico Aleister Crowley e do filósofo brasileiro Murillo Nunes de Azevedo para compor uma visão moderna da antiga sabedoria de Lao Tse.

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