top of page

A selvageria da FORÇA

Zzurto
Caminho suavemente pela estrada de terra seca e batida da região. É noite e o vento frio toca meus braços cruzados. O cansaço é devastador, mas o que importa? Sigo por essa estrada faz dias e não encontrei nada nem ninguém. A fome já chegou e comi o que encontrei pelo caminho, sagrado cajueiro que me lambuzou inteiro e me deu foi é raiva. Os animais soltos por ai não se importam comigo. As fazendas são enormes me dando receio de entrar e pedir auxílio. Mas eu sempre soube que seria assim, nunca pensei que seria diferente. Essa estrada é solitária mesmo, por mais amigos que criemos nos templos o trajeto é em boa parte sozinho. Contudo chego ao destino. Vejo uma casa pequena e rústica da qual me aproximo. Uma porta velha e encostada é empurrada por mim rangendo no vazio do ambiente. Vejo uma cama e alguns móveis pequenos como armários e um fogão à lenha. Mesmo cansado me agacho diante do fogão e ascendo seu carvão velho. Em instantes o calor toma conta do pequeno lugar. A janela está fechada, feita de madeira pesada. A cama limpo sem pensar muito. Abro um dos armários e nada encontro. O rito fora feito a cinco dias, mas até agora nenhuma resposta clara. E mesmo com fome me deito. Esse pensamento que veio foi um simples questionamento que logo tiro da cabeça, de que adianta ficar ruminando? O que fora feito está feito e nada mais posso fazer a não ser esperar. As frutas que comi nada mais foram do que já parte do processo, mas não me convenci de que tudo fora feito corretamente. Acabo sonolento caindo em sonho. E após longos minutos escuto um rangido em toda a casa. Como se um vento forte tentasse derruba-la sem medo. Abro os olhos no sobressalto. A porta treme e estala. Levanto cansado e lentamente vou até ela. Temo abrir. Temo abrir até que toco-a sentido uma explosão invasora vindo com toda a violência pela entrada, como uma monstruosa onda d’água inundando todo o lugar. Morri? Não… mas fui atingido em cheio pela carga que veio do alto até mim, pela carga que impliquei dias antes.


Quantas vezes você já passou por isso? Onde algo fora feito, passado tempo sem sinal nenhum e quando já não acreditamos mais somos invadidos por uma torrencial ação da FORÇA, vindo e derrubando tudo. Transformando.

Esse texto acima é uma alegoria (por assim dizer) do que trago para tratar hoje. A FORÇA é em si extremamente selvagem, o que esperar dela; o que esperar da sua chegada? Muitos tratam a FORÇA como um ser consciente e que possui vontade. Mas isso é um engano tolo. A FORÇA simplesmente é, não tem desejos além de sua constituição essencial. Se busco a força da batalha não virá a do amor incondicional, pelo menos não para quem tiver feito as coisas corretamente. E quanto mais bem feito mais volume será acessado. Mas o vaso é grande o suficiente?


Para compreender exatamente onde quero chegar pensemos nas práticas várias da magia como um todo. Indo da feitiçaria básica (que se fundamenta em angariar auxílios por meio normalmente de escambo) até a Teurgia onde a relação com a divindade do paradigma escolhido é trazida para perto por meio dos ritos e encantamentos com fins de consagração dentre outras coisas. Todas elas, incluindo todas as outras formas não citadas, tem mecânicas claras para evitar exatamente isso que impliquei em colocar no texto acima (temos esperanças disso). As suas práticas, por mais intensas que sejam, tem um limite de segurança e leva o praticante a alcançar tais limites por meio de um processo de evolução cumulativo. Você hoje tem condições X para tal coisa, no futuro, depois de todas as práticas poderemos elevar por Y esse mesmo fator inicial. Mas para todos aqueles que não seguem uma linha de práticas já pré-definida, o que ocorre?


Vamos dizer que em todos os casos a FORÇA é a mesma, mudando unicamente se mais densa ou mais sutil, grave/agudo, quente/frio, etc. Contudo a intensidade depende muito mais do praticante do que da prática adotada, pratica esta que tem variações características como quando pensamos em um rito religioso ou um ritual macabro por exemplo. Cada FORMA adotada requer implicações particulares e acessa de um modo particular a mesma FORÇA possibilitando variações desta, como um prisma acarreta variações da luz, que no fim é só luz. Contudo o volume adquirido por meio de cada uma destas práticas tem relação direta com o indivíduo que atua e por meio deste se enquadrando em: excessivo, grande, normal, pouco, nada, perda. O que determina isso é o quão sério é o envolvimento e o quão exato são os passos adotados e tomados. Mas como em todas as práticas humanas erros e desvios ocorrem e o que fazer?


Vamos dizer que você deseja acessar uma energia tal (órgão de baphomet) e por meio de estudos escolhe uma porta específica (análises astrológicas), num lugar específico (de acordo com o rito e interesses), gestos, mantras, roupas (não necessariamente um manto com capuz – rsrs), símbolos, pessoas ou não. E por fim realiza o rito. Vamos dizer que por algum motivo esse rito foi um belo golpe de sorte e tudo deu mais do que certo. Vamos implicar também que em dado momento você fora um tanto quanto olhudo e quis muito mais do que planejava, insistindo em alcançar o mundo inteiro, mas por qualquer razão que seja não encontrou obstruções, fossem elas éticas, morais ou mesmo de cacife. Nenhum problema nisso, até a mesma bater a porta como no texto, ou mesmo invadir o lugar como é o mais provável. Vale ressaltar que por mais que chamemos isso tudo de ciência sagrada esse termo ciência é um tanto quanto errado na verdade. Sabemos os mecanismos, sejam estes psicológicos, astrológicos, bioenergéticos, mas dificilmente saberemos o fator tempo de resposta e nos seguramos em presságios ou intuições. E se porventura não tivermos um pote grande o suficiente seremos transbordados; nos afogaremos indiscutivelmente.

Isso pode parecer exagerado, mas muito pelo contrário, é mais comum do que se imagina. Na verdade o que ocorre é que ao longo das práticas, da egrégora escolhida, dos dias estudando, das alianças feitas criamos uma barreira ou um freio nesta força (ou seria pedágio?). Nos limitamos para não nos afogarmos. Isso é extremamente útil, mas não significa que funcionará sempre. Se este freio por algum motivo não funcionar seremos alvejados por uma quantidade descomunal da FORÇA, podendo nem ser o que ansiávamos (erros de foco) e causando mais estragos do que soluções. Quantas e quantas histórias já não lemos de praticantes desmiolados? Seria isso olho grande mesmo ou a natureza? Provavelmente os dois. E diante disso nada poderemos fazer até a energia, a FORÇA, se extinguir naturalmente, ou por meio de práticas de descarga ou doações conscientes, etc.

Saber exatamente o que cada símbolo causará em seu universo particular é algo extremamente útil e importante e que requer tempo e estudo. Impregnar de emoção algo é uma tarefa constante e limitada somente pela sua própria imaginação. Confiar em sua própria ciência é algo que não se ensina em canto algum, advém somente dos resultados obtidos, quanto mais acertos… Lidar com a FORÇA é algo que implica em conhece-la, mas como? Fico imaginando a quantidade de praticantes neófitos perdidos por ai, aplicando teorias das mais variadas e abrindo e fechando portas das quais nem ao menos tem conhecimento. O que ocorrerá? Talvez a FORÇA nem venha como uma enxurrada como coloco, mas pode simplesmente manter uma passagem aberta por mais tempo do que se imagina, e passagens implicam em transeuntes, serão todos bem vindos? O que leva a uma pergunta circunstancial do quanto de fato você tem de habilidade real para identificar que fora obtido um resultado específico da sua intenção de outrora? E somente o tempo/experiência poderão responder, ou por sorte um sensitivo pé no chão passando por perto e dizendo: “é bom fechar a porta!”.


Avaliar isso antes de tomar uma decisão de fazer algo por fazer é muito sensato. Claro que não quero dizer que você não deva fazer. Muito pelo contrário. Não tem forma melhor de aprender do que fazendo. Mas antes de tencionar a realidade para algo como se você fosse um indivíduo super foda, tenha em mente que é necessário espaço e mãos hábeis, olhos atentos e faro treinado e muitas cartas na manga ou ao menos uma. Que antes de implicar em fazer algo pela emoção, saiba que ou se deposita a emoção exata para o processo ou você obterá uma sopa daquelas que se fazem com tudo o que se tem direito. Que antes de implicar em machucar alguém que este mesmo veneno passará por dentro de você e se der errado voltará logo mais. Que ser tolo só serve quando estamos nos divertindo. Que antes de fazer simplesmente para provar se isso existe mesmo, pare e pense que se existir o que você fará se algo der errado, aliás, muito certo? Está pronto para saber lidar com a responsabilidade de poder atingir outras pessoas ao redor, das quais nem ao menos faziam parte do foco? Está pronto para suportar os impulsos que virão instigados pelo excesso, daqueles tipos de impulso que parece que estamos embriagados e só vemos o resultado e não nossas ações? Está pronto para obter respostas das coisas, como as coisas são de fato, terá mesmo cacife para digerir tudo isso?


É assim mesmo que se deve refletir sobre o caso buscando sempre o respeito do qual os antigos sempre falavam. É respeito antes de mais nada saber baixar a cabeça e admitir pra si que agora não é a hora. É respeito à FORÇA (a grande mãe) saber implicar comedidamente. Eu admito que já passei por isso algumas vezes, e muitas delas nem ao menos percebi suas relações com o que tinha feito. Certa vez fiquei receoso com o caos que poderia surgir ao meu redor, mas tive o bom senso de respirar fundo, levantar a cabeça e deixar a espinha reta e seguir adiante aceitando e lidando da melhor forma possível com o fato. Mas se eu não estivesse com esse respaldo de segurança ou mesmo equilibrado o suficiente sei que certas coisas teriam saído completamente do eixo, coisas das quais nem ao menos tinham relação com o que tinha feito. A FORÇA é selvagem. Seja ela advinda por práticas Teúrgicas ou da simples feitiçaria. Não importa. Ela é selvagem! Ela vem sempre que a solicitamos e da forma como verdadeiramente a solicitamos (caminho do coração). Essa via não aceita ilusões, fraquezas, tolices. É necessário ter punho firme e olhar constante. É necessário ter apoios e aliados. É necessário ser sensato seja para o que for. É necessário saber que as coisas saem do lugar e se ficarmos no caminho seremos atingidos. Suas pernas são fortes o suficiente? Contudo não saia deste texto receoso… saia inspirado para ler, absorver, confirmar sempre cada vez mais. E se porventura qualquer dia desses se deparar com alguma onda gigante diante da porta o segredo é muito simples: se jogue na onda e surfe, de que adianta reclamar ou mesmo se arrepender agora?

0 visualização0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo

Reflexão

bottom of page